Resumo e roteiro de estudo pro ENEM com IA (sem colar, sem pagar nada)
Como meus alunos do 3º ano montam o resumo por competência, com exercícios, em 10 minutos — e a regra que eu cobro em sala: a IA resume, você reescreve com a sua mão.
Neste texto
Sexta de agosto do ano passado, 15h10, 3º ano da escola particular. Faltavam 10 semanas pro ENEM, em novembro. Perguntei quem já tinha um plano de estudo. Três mãos, numa turma de 34. A Júlia, uma das três, me mostrou o dela: 40 páginas de resumo gerado pelo ChatGPT, impressas, sem uma marca de caneta. Ela não tinha lido.
Gente, olha só: eu comecei a usar IA querendo pegar aluno colando, e ainda pego. Mas resumo de 40 páginas que ninguém leu não é cola. É desperdício. O problema da Júlia não era a ferramenta, era não ter ninguém pra ensinar o jeito certo de usar.
Então gastei uma aula inteira nisso. Montamos juntos, no celular de cada um, um roteiro de 10 semanas por competência, com exercício, e combinamos uma regra que eu cobro toda semana: a IA resume, você reescreve com a sua mão. Quem não reescreve, não estudou.
Neste texto você vai sair sabendo: montar com o aluno um roteiro de estudo por competência que cabe nas semanas que faltam; gerar resumo curto e exercício com gabarito por tema; e aplicar a regra da mão que transforma o resumo em estudo — e evita a cola.
O que você precisa
- Conta grátis no ChatGPT ou no Gemini. Os dois funcionam no celular, e é no celular que o aluno vai usar. Google AI Plus (R$ 24,99 por mês) e ChatGPT Go (R$ 39,99), em agosto de 2026, não são necessários pra isso.
- Se o aluno tem a apostila em PDF: NotebookLM, grátis. Ele resume só o que está no material do cursinho ou da escola, sem inventar de fora.
- Um caderno de verdade e uma caneta. Não é figura de linguagem.
- O aluno precisa saber em que ele é fraco. Se não sabe, o passo 1 resolve.
Passo 1 — O roteiro por competência, nas semanas que faltam
O ENEM cobra por área (Linguagens, Humanas, Natureza, Matemática) e a redação por cinco competências. Roteiro bom começa daí, não de “estudar tudo”. E precisa caber no tempo real do aluno, que trabalha, faz cursinho ou cuida de irmão.
Peço que cada um cole isto, preenchendo com a própria vida. Sem nome, sem nota do boletim: só o que ele sabe e não sabe.
Sou aluno do 3º ano e faço o ENEM em [10] semanas. Tenho [1h30] por dia, de [segunda a sexta], e [3 horas] no sábado. Sou fraco em [redação: competência 3 (argumentação) e competência 5 (proposta de intervenção)] e em [interpretação de texto e funções em Matemática]. Sou bom em [História e Biologia]. Monte um roteiro semana a semana: em cada semana, um tema principal, um tema de reforço, um dia de redação e um dia só de revisão. Termine com 2 semanas só de simulado e revisão. Em tabela.
Sai uma tabela de 10 linhas: semana 1, interpretação de texto com competência 3; semana 2, funções com competência 5; e assim vai. A Júlia olhou e disse “isso cabe na minha vida”. Era a primeira vez que o plano dela cabia.
Meu primeiro comando, testado em casa, dizia “monte um plano de estudo pro ENEM”. Veio um cronograma de 6 horas por dia com “Física quântica” na semana 3. Nenhum aluno meu tem 6 horas. Quando coloquei as horas de verdade e o que ele é fraco, o roteiro ficou possível. A IA planeja pra vida que você conta pra ela.
Passo 2 — O resumo curto e o exercício, um tema por vez
Aqui a Júlia tinha errado: pediu “resuma tudo de Português”. Sai um livro. O certo é um tema por vez, do tamanho de uma página de caderno, seguido de exercício com gabarito comentado. Na mesma conversa do roteiro, o aluno cola isto toda semana.
Tema desta semana: [competência 3 da redação do ENEM: argumentação]. Faça um resumo de no máximo 15 linhas, em linguagem de aluno do 3º ano, com os 3 pontos que mais caem e 1 erro comum. Depois crie [5] questões no estilo ENEM sobre esse tema, com gabarito comentado em separado. Não me dê o gabarito antes de eu responder.
Quinze linhas cabem numa página. Cinco questões cabem em 20 minutos. E “não me dê o gabarito antes” é a frase que faz o aluno tentar antes de olhar — o mesmo truque que o Ribamar usa com os filhos dele no texto do dever de casa. Ele fez a IA perguntar em vez de responder; aqui é igual, só que pro aluno de 17 anos.
Pra quem tem a apostila em PDF, o NotebookLM faz esse resumo a partir dela e cita a página. O aluno abre a apostila ali e lê a fonte, não só o resumo.
Uma questão que a IA criou sobre “competência 5” pedia proposta de intervenção sem agente e sem meio — exatamente o erro que o ENEM pune. E o gabarito dela dizia que estava certo. Peguei porque corrijo redação há 26 anos. O aluno sozinho não pegaria. Por isso, uma vez por semana, cada um me traz uma questão gerada e eu confiro em 30 segundos na frente da turma.
Passo 3 — A regra da mão (e como ela evita a cola)
Agora a parte que é minha. O resumo gerado fica na tela do celular. O caderno fica aberto do lado. E o aluno reescreve o resumo com a própria mão, com as próprias palavras, sem copiar frase inteira. Depois responde as 5 questões no caderno. Só então abre o gabarito.
Por que à mão? Porque copiar e colar não passa pela cabeça. Reescrever, passa. Eu vejo isso no caderno: quando o aluno reescreve, ele troca “mediante” por “com”, corta a frase que não entendeu e escreve “não entendi” na margem. Essa margem é onde eu entro.
Toda sexta a turma abre o caderno na carteira e eu passo olhando. Não corrijo tudo — são 34 cadernos e mais 8 turmas. Olho a margem. Quem escreveu “não entendi” ganha 2 minutos de explicação. Quem tem página impressa colada no caderno ganha a pergunta: “me explica isso com a sua palavra”. Quem não consegue, sabe que não estudou.
E a redação, que é o que eu mais cobro, tem regra própria. A IA pode dar o tema, o resumo da competência e até apontar o que faltou num parágrafo. Ela não escreve a redação. No ENEM não vai ter IA na sala, e eu digo isso toda semana: “quem treina com a mão da máquina chega em novembro sem a própria”.
Vou colar um parágrafo de redação que eu escrevi. Não reescreva. Só aponte, em 3 linhas, o que faltou para a competência [3] e me faça uma pergunta que me ajude a melhorar. [cole o parágrafo]
No começo eu proibi a IA na redação, ponto. Metade da turma usava escondido. Quando mudei pra “pode pedir opinião, não pode pedir texto”, e mostrei o comando em sala, o uso escondido caiu e os parágrafos vieram com correção da própria mão. Proibir não ensina. Mostrar o jeito certo, sim.
O resultado
Nove semanas depois, simulado da escola. A Júlia, que tinha 40 páginas sem ler, chegou com um caderno de 28 páginas escritas à mão e “não entendi” em 11 margens — todas resolvidas. Redação do simulado: de 640 pra 800, na escala do ENEM. Na turma, 26 dos 34 fizeram o roteiro até o fim. Os oito que não fizeram, eu sei quem são, e sei por quê: a regra da mão não deixa ninguém fingir.
Este ano comecei o roteiro na semana passada, com as duas turmas de 3º ano. Na pública, onde a internet da escola não ajuda, os alunos geram o resumo em casa ou no dado do celular — 15 linhas carregam em qualquer sinal — e o caderno faz o resto. A IA não estuda por ninguém. Mas faz o mapa, e quem tem mapa anda.
26 anos de sala de aula, rede pública de manhã e particular à tarde. Nove turmas. Personagem editorial do forfun.gg — saiba como funciona.
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